Inteligência artificial, autoria e os novos desafios dos Prêmios Jabuti e Jabuti Acadêmico

Os desafios trazidos pela inteligência artificial para a criação intelectual, os direitos autorais e a educação estiveram entre os destaques da mesa “Entre a literatura e o conhecimento: os Prêmios Jabuti e Jabuti Acadêmico”, realizada no dia 9 de setembro, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
O encontro reuniu Hubert Alquéres, presidente da Academia Paulista de Educação e curador do Prêmio Jabuti, e Nina Beatriz Stocco Ranieri, Titular da Cadeira nº 16 da APE e curadora do Prêmio Jabuti Acadêmico. A conversa foi mediada pelo professor da Unesp Amadeu Moura Bego, integrante do Conselho Estadual de Educação de São Paulo.
A mesa apresentou as características das duas premiações promovidas pela Câmara Brasileira do Livro, suas histórias e diferenças, os processos de avaliação, a escolha e a responsabilidade dos jurados e o papel dos prêmios na valorização da literatura, da produção acadêmica e da circulação do conhecimento brasileiro.
Criado em 1958, o Prêmio Jabuti consolidou-se como uma das principais referências do livro brasileiro. O Jabuti Acadêmico, criado pela CBL em 2024, voltou-se especificamente para livros acadêmicos, científicos, técnicos, profissionais e didáticos, reunindo em sua terceira edição categorias que abrangem diferentes campos do conhecimento.
Um dos temas que ganharam maior espaço na conversa foi a inteligência artificial e seus impactos sobre a autoria. Os regulamentos das duas premiações adotam uma posição clara sobre a questão. No Prêmio Jabuti 2026, não são aceitos livros que tenham empregado ferramentas de IA em tarefas autorais. A regra admite a presença de conteúdo gerado por IA quando esse material constitui objeto de análise, estudo, debate ou crítica. A CBL informa também que eventual utilização da tecnologia em tarefas não autorais deve ser declarada na própria obra.

O Prêmio Jabuti Acadêmico segue o mesmo princípio de proteção da autoria. Na apresentação das regras da edição de 2026, a CBL reforçou que livros que tenham empregado IA em tarefas autorais não são aceitos. Nina Ranieri sintetizou os fundamentos da norma em dois objetivos: valorizar o trabalho autoral e assegurar o uso ético da inteligência artificial. Segundo ela, a utilização da tecnologia é vedada nas tarefas autorais e, para outras finalidades, deve ser declarada.
Para os participantes da mesa, a defesa dos direitos autorais permanece fundamental diante da rápida disseminação das ferramentas de inteligência artificial. O avanço tecnológico amplia possibilidades de pesquisa, edição e circulação do conhecimento, mas coloca novas questões sobre autoria, transparência e responsabilidade, que precisam ser consideradas pelas instituições culturais, acadêmicas e educacionais.
O debate avançou também para a educação. Amadeu Bego chamou a atenção para a necessidade de pensar o uso da inteligência artificial de maneira compatível com as diferentes faixas etárias e etapas de formação dos estudantes. A discussão não deve se limitar à alternativa entre proibir ou liberar a tecnologia, mas considerar quando, como e com quais objetivos pedagógicos ela pode ser utilizada.
Nesse sentido, a presença crescente da IA nas escolas traz uma questão adicional: antes de ensinar a utilizar uma ferramenta, é necessário definir quais aprendizagens precisam ser preservadas e desenvolvidas pelo próprio estudante. Leitura, escrita, argumentação, pesquisa, capacidade crítica e autonomia intelectual assumem importância ainda maior quando sistemas tecnológicos são capazes de produzir textos, imagens e respostas de forma quase instantânea.
Ao aproximar o universo literário do acadêmico, a mesa mostrou que Jabuti e Jabuti Acadêmico enfrentam hoje questões semelhantes. Embora reconheçam produções de naturezas distintas, os dois prêmios precisam responder às transformações tecnológicas sem perder de vista princípios que estão em sua própria razão de existir: autoria, originalidade, qualidade intelectual e respeito aos direitos de quem cria e produz conhecimento.
A conversa na Bienal evidenciou, assim, que discutir o futuro dos prêmios significa também discutir o futuro do livro, da produção intelectual e da própria educação em um ambiente profundamente transformado pela inteligência artificial.

