Artigo – Quando o virtual se torna real

Por Francisco Carbonari
Gosto de música. Sempre gostei. Passei pela era do rádio, da vitrola, da fita K7, do CD, do walkman e cheguei às plataformas digitais. Hoje elas conhecem meu gosto e, a partir dele, me oferecem músicas e intérpretes. Isso me permite descobrir coisas que provavelmente eu não encontraria sozinho.
Ultimamente tenho ouvido muito “Blues” e as plataformas me apresentaram novos intérpretes. Duas cantoras, em particular, Enlly Bluee Nina Blazeme chamaram a atenção: pelo ritmo, repertório e, principalmente, pela qualidade vocal. Elas entraram nas minhas listas de reprodução. Procurei vídeos e, confesso, me impressionei com a beleza das duas.
Busquei saber mais sobre elas. Foi quando descobri algo que me deixou surpreso: Enlly Blue e Nina Blaze, não existem como cantoras. São fruto de um projeto musical criado por inteligência artificial. Não há mulheres por trás desses nomes, vozes ou imagens. Toda a identidade musical e visual foi construída por inteligência artificial.
O que me assustou não foi a existência de música produzida por IA. Nenhuma novidade. O que me incomodou foi que eu havia acreditado que elas eram reais
A experiência me fez refletir sobre algo muito maior do que esse episódio: o virtual está deixando de ser apenas uma representação do real e começa a ocupar o lugar do próprio real.
Até pouco tempo, havia uma distinção razoavelmente clara entre as duas coisas. Uma fotografia representava uma pessoa. Um filme registrava uma cena. Uma gravação preservava uma voz. A televisão transmitia uma imagem de alguém que existia diante de uma câmera. Agora os indivíduos não são mais necessárias. Podemos criar a pessoa, a voz, a imagem e a sua história. O virtual se tornou o novo real.
Não precisamos mais ir ao Nepal para escalar o Everest. Colocamos um óculos e somos transportados para aquele ambiente. Não para assistir um documentário, mas para participar de uma situação que reproduz imagens, sensações, emoções e até os riscos de uma escalada.
Nesse sentido, a pergunta que se impõem é: “o que consideraremos como realidade quando já não conseguirmos distinguir entre as duas coisas?
Se uma experiência virtual consegue produzir em mim emoções semelhantes às de uma experiência real, o que corresponderá àquilo que chamamos de realidade?
Hoje, quando procuro alguma informação em uma plataforma de IA, converso com ela como se estivesse me dirigindo a alguém. Chamo de “você”, faço perguntas, discuto e termino dizendo “obrigado”. Sei que não existe uma pessoa do outro lado, mas a conversa é como se tivesse. A máquina deixa de parecer apenas uma ferramenta e passa a ocupar um espaço que pertencia exclusivamente às relações humanas.
Não sei exatamente onde isso vai nos levar. E talvez as perguntas mais difíceis estejam ainda por vir.
Nasci em um época na qual o celular e a internet não existiam, e o mundo virtual, tal como o conhecemos hoje, sequer era imaginável. Minha geração talvez seja uma das últimas capaz de lembrar, pela própria experiência, como era a vida antes dessas transformações e entender o que se perdeu e o que se ganhou. Essa questão é a que mais me inquieta
Não porque eu tema a tecnologia. Muito pelo contrário. Uso-a, gosto dela e me beneficio do que ela oferece. O problema é a velocidade com que ela está mudando aquilo que entendemos por realidade, por memória, por presença e até por humanidade.
Se for assim, a pergunta mais importante não é até onde conseguiremos chegar, mas, “como saberemos quem somos quando o mundo não nos permitir mais distinguir o que é real e o que apenas aparenta ser?
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Francisco Carbonari é Acadêmico. Foi secretário de educação do município de Jundiaí e secretário Executivo da Secretaria estadual de educação.
