Artigo – Será que as pessoas podem descobrir o que pensamos?

por Reinaldo Polito
Descubra como nossos pensamentos podem ser percebidos através da linguagem corporal e a importância da coerência na comunicação
Cuidado! É possível que as pessoas descubram o que estamos pensando. Pode parecer loucura, mas a nossa cabeça talvez não consiga proteger os nossos pensamentos como geralmente julgamos.
Quando eu era criança, uma história curiosa mexeu com a turma. Durante algum tempo um menino chamado Ariovaldo comeu o pão que o diabo amassou. Ele imaginava que as outras pessoas podiam ouvir seus pensamentos.
Contou para a pessoa errada?
Não tinha um minuto de paz. Se surgisse um pensamento negativo quando conversava com alguém, imediatamente se esforçava para mudar o que estava em sua cabeça, porque tinha certeza de que ouviam tudo o que se passava em sua mente. Caiu na besteira de revelar seu segredo para o Serjão, o mais pestinha do grupo. Sua vida, que já era tumultuada, virou de vez um pesadelo. Sua esquisitice ficou conhecida por todos.
Com todo mundo sabendo de suas excentricidades, assim que ele aparecia na esquina sempre havia um moleque de plantão para tripudiar: — Ari, se você continuar pensando essas coisas sobre a minha irmã, vou te arrebentar a cara.
Perdeu a graça
Fizeram tanta gozação com o coitado do Ari que, de um momento para o outro, sem saber como, ele descobriu a idiotice que havia criado para si mesmo. Mudou o comportamento e se juntou ao grupo nas brincadeiras. Antes que alguém dissesse alguma coisa, ele tomava a iniciativa: — Meus pensamentos são um livro aberto.
Percebendo que ele não dava mais importância às zombarias, as provocações perderam a graça e pararam de azucrinar o menino.
Claro que os nossos pensamentos não têm voz. Entretanto, podemos revelar o que pensamos ou sentimos pelo nosso corpo. Sim, o corpo fala — e muito!
A linguagem do corpo
Nossos pensamentos não falam, como imaginava o Ari. É possível, entretanto, perceber pelos sinais do corpo o que estamos sentindo e se a mensagem transmitida pelas palavras é ou não consistente, se é ou não coerente.
Na obra Human Communication, Stewart L. Tubbs e Sylvia Moss dizem: “Ekman levanta uma interessante questão ao perguntar se as pistas dadas pelos movimentos do corpo são diferentes daquelas dadas pela cabeça e pelos movimentos faciais”.
Sinais de coerência
A conclusão de seus estudos indica que a cabeça e o rosto sugerem qual emoção está sendo experimentada, enquanto o corpo dá pistas a respeito da intensidade dessa emoção. As mãos, entretanto, podem nos dar as mesmas informações recebidas da cabeça e do rosto.
Essas pesquisas revelam que, se não houver coerência e harmonia entre as palavras, os sentimentos transmitidos, a entonação usada, os sutis movimentos do corpo, a expressão facial e os gestos, enfim, harmonia nos diferentes traços de uma mesma linguagem, nossa comunicação estará seriamente prejudicada e o nosso preparo, a confiança e a credibilidade serão questionados.
Formação cultural
Todos esses aspectos estão relacionados à competência da comunicação. Nas diferentes fases da formação, as pessoas aprendem a usar de maneira adequada o tom da voz, os gestos, a comunicação facial, as reações do corpo, enfim, desenvolvem habilidades que as preparam para conviver naturalmente em sociedade.
De acordo com a cultura em que são educadas, as sutilezas são incorporadas na maneira de se comunicar e de se expressar: um discreto levantar de sobrancelha que indique surpresa. Uma quase imperceptível mordida no lábio inferior que demonstre ansiedade. Um rápido tamborilar com os dedos que informe impaciência.
Monitoramento contínuo
Ainda nessa fase de aprendizado, a pessoa descobre até que ponto pode ou não tocar ou se aproximar fisicamente dos outros, qual o tom de voz apropriado para as mais diferentes situações e todas as reações próprias para uma boa convivência. Com o passar do tempo, esse comportamento é naturalizado e constantemente monitorado.
Anthony Giddens, na obra Modernidade e identidade, afirma que “Aprender a tornar-se um agente competente — capaz de se juntar aos outros em bases iguais na produção e reprodução de relações sociais — é ser capaz de exercer um monitoramento contínuo e bem-sucedido da face e do corpo”.
Desculpe, Ari
Deduz-se, portanto, que o indivíduo, para se sentir competente, precisa manter o domínio sobre o corpo em todas as situações sociais. Além disso, o autor afirma que “ser um agente competente significa não só manter tal controle contínuo, mas ser percebido pelos outros quando o faz”.
Se, por acaso, a primeira condição não puder ser atendida, ou seja, a pessoa não conseguir manter o controle do corpo, ela perderá sua proteção e sua confiança básica será ameaçada. Consequentemente, a segunda condição será afetada, pois os outros perceberão esse descontrole e poderão desconfiar da sua competência.
Por incrível que pareça, então, o Ari não era tão esquisito assim. Seu corpo, realmente, podia revelar seus pensamentos. Até que ele podia ser considerado bem normalzinho!
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Reinaldo Polito é Acadêmico e Professor.
