Jabuti 2026 consagra Ruy Castro e reafirma diversidade

A 68ª edição do Prêmio Jabuti consagrou Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro, como Livro do Ano de 2026.
Promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Jabuti tem como curador, pelo terceiro ano consecutivo, Hubert Alquéres, presidente da Academia Paulista de Educação. A edição de 2026 recebeu 4.675 inscrições de obras e projetos nas 22 categorias regulares.
A cerimônia, realizada em 27 de outubro, na Sala São Paulo, reuniu autores, editores e profissionais do livro e premiou obras em 23 categorias distribuídas pelos eixos Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Da APE estiveram presentes Nina Ranieri, Eliana Amaral, Rose Neubauer, José Vicente e Mauro Aguiar, além do curador do prêmio.
Ruy Castro conquistou também o prêmio de Biografia e Reportagem com Trincheira tropical, publicado pela Companhia das Letras. Com a vitória no Livro do Ano, tornou-se o primeiro autor a conquistar o principal reconhecimento do Jabuti em dois anos consecutivos — em 2025, havia vencido com O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim. O feito foi um dos principais destaques da cobertura da imprensa sobre a premiação.
Entre os demais resultados de maior repercussão, Eliana Alves Cruz venceu Romance Literário com Meridiana, tornando-se a primeira mulher negra a conquistar a categoria. A premiação também revelou novos nomes: o estreante baiano Abáz, publicado pelo Senac Rio, venceu Contos com Massaranduba, superando autores já consagrados. Os resultados ilustraram uma característica do Jabuti: a convivência entre autores de longa trajetória, novas vozes, grandes grupos editoriais e editoras independentes.
Outra novidade foi a estreia da categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital, criada para reconhecer quem utiliza os ambientes digitais para formar leitores e construir comunidades em torno dos livros. O vencedor foi Pedro Pacífico, criador do Bookster. A categoria recebeu 402 indicações válidas: um colegiado de 12 jurados selecionou dez semifinalistas, que seguiram para votação popular até a definição dos cinco finalistas.
A criação da categoria integra uma orientação da curadoria de ampliar o alcance do Jabuti sem descaracterizar sua tradição. Em 2026, outra mudança incorporou os vencedores das categorias Escritor Estreante – Poesia e Escritor Estreante – Romance à disputa pelo Livro do Ano.
“A estreia de Cultura Digital reconhece o trabalho de quem conquista leitores e cria comunidades em torno dos livros. Também ampliamos a disputa pelo Livro do Ano para incluir os vencedores das categorias de escritores estreantes em Poesia e Romance. São mudanças que abrem espaço a novas trajetórias e ampliam o alcance do prêmio”, afirmou Hubert Alquéres.
Independência e diversidade no julgamento
O modelo de julgamento ajuda a explicar a diversidade dos resultados. Cada categoria conta com três jurados, que avaliam individualmente as obras a partir de critérios previamente estabelecidos. Não há deliberação coletiva posterior destinada a produzir consenso entre os julgadores. O resultado decorre das avaliações independentes e das notas atribuídas às obras. A mídia, ao analisar a premiação, chamou atenção justamente para como esse sistema, associado à diversidade de perfis dos jurados, pode produzir escolhas menos previsíveis e favorecer a pluralidade.
Esse princípio está no centro da curadoria: regras conhecidas, critérios definidos, independência dos jurados e diversidade na composição dos júris. Cabe à curadoria estruturar e acompanhar o processo, preservar a coerência e a credibilidade do prêmio e atualizar seus mecanismos, sem interferir na avaliação das obras ou buscar direcionar os resultados.
A edição de 2026 reafirmou ainda outro princípio: o reconhecimento da criação humana diante do avanço da inteligência artificial generativa. O regulamento vedou seu emprego em tarefas autorais das obras inscritas, preservando autoria e responsabilidade intelectual como fundamentos da premiação.
A cerimônia prestou também homenagem a Lygia Bojunga, Personalidade Literária de 2026, no ano em que A Bolsa Amarela completa 50 anos. A escritora enviou uma mensagem e uma carta manuscrita e foi representada na Sala São Paulo por Ninfa Parreiras.
Criado em 1958, o Jabuti chega assim aos 68 anos procurando combinar tradição e renovação: preservar o rigor e a independência de seu julgamento, reconhecer a diversidade da produção editorial brasileira, abrir espaço para novos autores e novas formas de formação de leitores e responder às transformações contemporâneas do livro e da leitura.
