Artigo – Minha história com um dos maiores humoristas de todos os tempos

por Reinaldo Polito
Vou contar como conversei demoradamente com um dos maiores humoristas brasileiros de todos os tempos: José Vasconcelos. Essa foi a realização de um sonho que eu jamais havia sonhado. Era um dos meus grandes ídolos. Ouvi seu disco “Eu sou o espetáculo” incontáveis vezes.
Vasconcelos era um humorista inteligente, perspicaz, sensível. Contador de piadas decentes, palavra que ele próprio gostava de usar, nunca apelava para a vulgaridade. Fazia imitações excelentes sem ridicularizar ninguém. Possuía domínio total do palco e explorava com inigualável competência a postura e a gesticulação. Chegava a fazer graça sem dizer uma única palavra, apenas com suas expressões fisionômicas.
Certo dia, toca o telefone. Pensei que se tratava de um trote. A pessoa se apresentava como sendo José Vasconcelos. Respondi: “Sei… e eu sou o presidente da República.” O interlocutor insistiu: “Sim, sou eu mesmo, professor Polito. Estou ligando porque gostaria muito de assistir a uma de suas aulas.” Ainda desconfiado, respondi que seria uma honra recebê-lo.
Comentei que naquela noite eu ministraria uma aula de apresentação do meu curso, e que esse seria um momento interessante para que conhecesse o trabalho que desenvolvia. Vasconcelos topou.
Almoço inesquecível
Aproveitando a oportunidade, eu o convidei para almoçar. Ele aceitou. Passou pela minha escola e fomos a um bom restaurante. Não só almoçamos como esticamos a conversa por toda a tarde. Saímos de lá quase na hora de eu iniciar a minha exposição para as pessoas interessadas em participar do meu curso. Nós dois estávamos empolgados com a troca de ideias.
Lembro-me de um fato curioso. Perguntei se, ao repetir tantas vezes determinado espetáculo, ele não corria o risco de ter branco no meio do show. Diante da sua resposta afirmativa, quis saber qual era o antídoto que ele carregava na manga para se safar dessas situações. Quase caí de costas ao descobrir que a tática usada por ele era a mesma que eu lançava mão e sugeria aos meus alunos.
Uma tática eficiente
Sua explicação foi clara: “Polito, ao repetir muitas vezes as mesmas falas, o risco é entrar numa espécie de piloto automático. Enquanto as frases são proferidas, o pensamento viaja para fora do teatro. Qualquer acontecimento além do habitual poderá desviar completamente o raciocínio da apresentação. Para evitar esse contratempo, ao perceber que estou perdendo o contato com o ambiente, inverto a ordem das piadas. Uma que estava programada para ser contada mais no final, antecipo. Dessa forma, com a mudança no roteiro, sou obrigado a ficar atento ao que faço no momento.”
O auditório estava lotado
Comentei com ele que nunca havia lido sobre esse recurso em nenhum lugar, mas era o mesmo que eu utilizava. Rimos bastante da coincidência. Outro ponto comum foi que, por mais domínio que tivéssemos sobre o assunto que iríamos abordar, ensaiávamos várias vezes tudo o que seria exposto.
O auditório estava lotado. Naquela noite, caprichei ainda mais na minha aula. Não dei aula “para ele”, pois desde cedo aprendi que todos os ouvintes devem ser respeitados e considerados. Por mais importante que seja uma pessoa na plateia, procuro tratá-la como se fosse mais um dos presentes. Ele prestou atenção em cada detalhe do que falei.
Deu um show
Assim que terminei, perguntei se ele não gostaria de deixar uma mensagem àquelas pessoas. Prontamente aceitou. Sua participação foi espetacular. Assim que se posicionou no palco, disse: “Sei que se eu viesse à frente e não contasse uma piada seria uma frustração… para mim.” O público reagiu com estrondosa gargalhada.
Ao reescrever meu livro Como falar corretamente e sem inibições, pedi sua autorização para incluir no áudio que acompanha a obra as histórias, imitações e piadas que contou naquela aula. Assim que o livro ficou pronto, enviei um exemplar a ele. Telefonei para saber se havia recebido e se gostara do resultado. Adorou. Foi a última vez que conversamos.
Grande saudade
No dia 11 de outubro de 2011, ele faleceu aos 85 anos. Fiquei triste em não poder mais conversar com uma pessoa tão inteligente, simpática e competente. De vez em quando pego o livro, ativo o áudio e ouço as maravilhosas histórias com que encantou todos os que tiveram a felicidade de comparecer àquela aula e receber um presente tão especial.
Zé Vasconcelos deixou marcas em muitas gerações que se alegraram com a sua arte. Em mim, uma tremenda saudade, momentos que carrego para sempre. Até hoje me lembro da nossa conversa no restaurante, das histórias que compartilhamos e das risadas soltas que demos. Grande, Zé.

