Nilson José Machado revisita Primo Levi em miniaula sobre ciência, literatura e vida

O acadêmico Nilson José Machado, Titular da Cadeira nº 22 da Academia Paulista de Educação, apresenta, em miniaula promovida pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), uma reflexão sobre Primo Levi e sua obra A Tabela Periódica.
Sob o título “Primo Levi: A Tabela Periódica ou a Vida”, a apresentação toma como ponto de partida um livro singular na produção do escritor italiano, no qual os elementos químicos deixam de constituir apenas matéria científica e passam a organizar histórias, experiências e reflexões sobre a própria condição humana.
Químico de formação e escritor, Primo Levi (1919-1987) tornou-se uma das principais vozes da literatura de testemunho do século XX. Judeu italiano, foi deportado para Auschwitz em 1944 e transformou a experiência do campo de concentração em matéria de reflexão sobre a dignidade humana, a memória, o trabalho e os limites da razão.
Em A Tabela Periódica, publicado originalmente em 1975, Levi construiu uma obra diferente. Seus 21 capítulos recebem nomes de elementos químicos — entre eles Argônio, Hidrogênio, Zinco, Ferro, Potássio, Níquel, Cério, Carbono e Vanádio — e articulam episódios autobiográficos, ficção, ciência, memória e a experiência profissional do autor como químico.
É justamente essa combinação que permite ultrapassar as fronteiras tradicionais entre ciência e literatura. Estudos dedicados à obra mostram como Levi utiliza a química não apenas como tema, mas como uma forma de interpretar a realidade. Os elementos e as transformações da matéria tornam-se caminhos para falar de identidade, trabalho, escolhas, relações humanas e acontecimentos históricos.
A própria estrutura do livro é reveladora. A tabela criada por Mendeleiev procura encontrar ordem na diversidade dos elementos; Levi, por sua vez, utiliza os elementos químicos para procurar alguma inteligibilidade na diversidade e nas contradições da experiência humana. Ciência e literatura não aparecem, assim, como campos separados, mas como diferentes maneiras de interrogar e compreender o mundo.
Essa perspectiva torna especialmente significativa a abordagem de Nilson José Machado, cuja trajetória acadêmica é marcada pela reflexão sobre conhecimento, educação e formação. Em sua miniaula, a obra de Primo Levi oferece a oportunidade de pensar as relações entre especialização e cultura, razão e experiência, conhecimento científico e vida.
A Tabela Periódica ocupa um lugar particular na produção de Levi justamente porque sua experiência como químico não aparece separada de sua experiência como homem. O laboratório, o trabalho, as leis raciais do fascismo, a perseguição aos judeus, Auschwitz e a reconstrução da vida depois da guerra integram uma mesma narrativa.
O capítulo “Cério”, por exemplo, situa-se no campo de concentração e ocupa posição central no livro. Já outros capítulos acompanham a formação de Levi, suas experiências de laboratório e seu ingresso no mundo profissional, inclusive sob as restrições impostas pelas leis raciais fascistas. A química funciona simultaneamente como profissão, linguagem e instrumento para compreender a realidade.
A obra permite ainda uma reflexão particularmente fecunda para a educação. Ao aproximar conhecimentos científicos de questões históricas, éticas e humanas, Levi mostra como um saber especializado pode adquirir sentido quando colocado em relação com outras dimensões da experiência.
Pesquisas recentes têm destacado exatamente essa característica de A Tabela Periódica: sua capacidade de comunicar conhecimentos da química a leitores não especializados e, simultaneamente, relacioná-los à história, à literatura e às grandes questões humanas.
A miniaula de Nilson José Machado convida, assim, a reencontrar Primo Levi para além — mas nunca à margem — de sua condição de testemunha de Auschwitz. Em A Tabela Periódica, o químico, o escritor e o sobrevivente são dimensões inseparáveis de um mesmo autor.
É dessa combinação que emerge uma das questões sugeridas pelo próprio título da apresentação: a tabela periódica ou a vida? Em Primo Levi, a força da obra está justamente em mostrar que a alternativa é falsa. A ciência é parte da vida, e compreender a matéria pode também ser uma maneira de compreender o homem.
O acadêmico Nilson José Machado, Titular da Cadeira nº 22 da Academia Paulista de Educação, apresenta, em miniaula promovida pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), uma reflexão sobre Primo Levi e sua obra A Tabela Periódica.
Sob o título “Primo Levi: A Tabela Periódica ou a Vida”, a apresentação toma como ponto de partida um livro singular na produção do escritor italiano, no qual os elementos químicos deixam de constituir apenas matéria científica e passam a organizar histórias, experiências e reflexões sobre a própria condição humana.
Químico de formação e escritor, Primo Levi (1919-1987) tornou-se uma das principais vozes da literatura de testemunho do século XX. Judeu italiano, foi deportado para Auschwitz em 1944 e transformou a experiência do campo de concentração em matéria de reflexão sobre a dignidade humana, a memória, o trabalho e os limites da razão.
Em A Tabela Periódica, publicado originalmente em 1975, Levi construiu uma obra diferente. Seus 21 capítulos recebem nomes de elementos químicos — entre eles Argônio, Hidrogênio, Zinco, Ferro, Potássio, Níquel, Cério, Carbono e Vanádio — e articulam episódios autobiográficos, ficção, ciência, memória e a experiência profissional do autor como químico.
É justamente essa combinação que permite ultrapassar as fronteiras tradicionais entre ciência e literatura. Estudos dedicados à obra mostram como Levi utiliza a química não apenas como tema, mas como uma forma de interpretar a realidade. Os elementos e as transformações da matéria tornam-se caminhos para falar de identidade, trabalho, escolhas, relações humanas e acontecimentos históricos.
A própria estrutura do livro é reveladora. A tabela criada por Mendeleiev procura encontrar ordem na diversidade dos elementos; Levi, por sua vez, utiliza os elementos químicos para procurar alguma inteligibilidade na diversidade e nas contradições da experiência humana. Ciência e literatura não aparecem, assim, como campos separados, mas como diferentes maneiras de interrogar e compreender o mundo.
Essa perspectiva torna especialmente significativa a abordagem de Nilson José Machado, cuja trajetória acadêmica é marcada pela reflexão sobre conhecimento, educação e formação. Em sua miniaula, a obra de Primo Levi oferece a oportunidade de pensar as relações entre especialização e cultura, razão e experiência, conhecimento científico e vida.
A Tabela Periódica ocupa um lugar particular na produção de Levi justamente porque sua experiência como químico não aparece separada de sua experiência como homem. O laboratório, o trabalho, as leis raciais do fascismo, a perseguição aos judeus, Auschwitz e a reconstrução da vida depois da guerra integram uma mesma narrativa.
O capítulo “Cério”, por exemplo, situa-se no campo de concentração e ocupa posição central no livro. Já outros capítulos acompanham a formação de Levi, suas experiências de laboratório e seu ingresso no mundo profissional, inclusive sob as restrições impostas pelas leis raciais fascistas. A química funciona simultaneamente como profissão, linguagem e instrumento para compreender a realidade.
A obra permite ainda uma reflexão particularmente fecunda para a educação. Ao aproximar conhecimentos científicos de questões históricas, éticas e humanas, Levi mostra como um saber especializado pode adquirir sentido quando colocado em relação com outras dimensões da experiência.
Pesquisas recentes têm destacado exatamente essa característica de A Tabela Periódica: sua capacidade de comunicar conhecimentos da química a leitores não especializados e, simultaneamente, relacioná-los à história, à literatura e às grandes questões humanas.
A miniaula de Nilson José Machado convida, assim, a reencontrar Primo Levi para além — mas nunca à margem — de sua condição de testemunha de Auschwitz. Em A Tabela Periódica, o químico, o escritor e o sobrevivente são dimensões inseparáveis de um mesmo autor.
É dessa combinação que emerge uma das questões sugeridas pelo próprio título da apresentação: a tabela periódica ou a vida? Em Primo Levi, a força da obra está justamente em mostrar que a alternativa é falsa. A ciência é parte da vida, e compreender a matéria pode também ser uma maneira de compreender o homem.
