Artigo – O país que alimenta o mundo mas não aparece nos livros escolares

Por Hubert Alquéres e Guiomar Namo de Mello
O Brasil é uma potência agroambiental. Poucos países conseguem combinar escala produtiva, tecnologia tropical e capacidade de alimentar centenas de milhões de pessoas dentro e fora de suas fronteiras. Ainda assim, persiste um paradoxo curioso: enquanto o agronegócio sustenta parcela relevante do PIB, das exportações e do equilíbrio da balança comercial brasileira, sua imagem nas escolas frequentemente permanece associada a estereótipos do passado.
Um breve olhar para os números ajuda a dimensionar essa realidade. O agronegócio responde por cerca de um quarto do PIB brasileiro, por quase metade das exportações nacionais e por milhões de empregos diretos e indiretos ao longo de cadeias produtivas altamente sofisticadas. O Brasil é hoje o maior exportador mundial de soja, café, açúcar, suco de laranja e carnes, além de um dos principais produtores globais de milho, algodão e proteínas animais. Estima-se que a produção agropecuária brasileira contribua para alimentar mais de um bilhão de pessoas no mundo, desempenhando papel estratégico na segurança alimentar internacional.
Mais do que isso: projeções da FAO e da OCDE indicam que o Brasil deverá ser responsável por algo entre um terço e quase metade de todo o aumento da oferta global de alimentos nas próximas décadas. Em diversas cadeias, como soja, milho e proteínas animais, a participação brasileira no crescimento da produção mundial pode ultrapassar 50%. Em termos práticos, significa que uma parcela decisiva do acréscimo de consumo alimentar do planeta dependerá diretamente da capacidade produtiva brasileira.
Quando se afirma que o Brasil ajuda a alimentar o mundo, não se trata de retórica nacionalista, mas de um dado estrutural da economia global: poucos países possuem simultaneamente terra, tecnologia tropical, escala produtiva e capacidade científica para responder ao desafio central do século XXI: garantir segurança alimentar a uma população mundial em expansão.
Trata-se, portanto, não apenas de um setor econômico relevante, mas de um ativo geopolítico cuja compreensão é parte importante da formação básica dos estudantes. É nesse ponto que surge a atuação da organização da sociedade civil De Olho no Material Escolar, iniciativa criada com um objetivo direto: aproximar educação, ciência e realidade produtiva, revisitando a forma como o agronegócio brasileiro é apresentado nos conteúdos didáticos.
A associação parte de uma constatação simples. Durante a pandemia, quando famílias passaram a acompanhar mais de perto as atividades escolares, tornou-se evidente para muitos pais e profissionais do setor que parte do material didático tratava o campo brasileiro com informações desatualizadas ou desconectadas da evolução tecnológica ocorrida nas últimas décadas. A resposta foi organizar uma entidade voltada à análise desses conteúdos e à promoção de referências baseadas em evidências científicas.
O trabalho da ONG não se limita à crítica. Sua principal contribuição está na construção de pontes entre escola e setor produtivo. Programas como o Vivenciando a Prática levam estudantes a conhecer diretamente sistemas de produção agrícola, centros de pesquisa e cadeias agroindustriais, permitindo que o aprendizado deixe o plano abstrato e se conecte à economia real do país.
Outro exemplo é a Agroteca, biblioteca digital que reúne estudos, publicações técnicas e materiais científicos sobre agropecuária, sustentabilidade e inovação no campo. A proposta é oferecer a professores e alunos acesso a fontes atualizadas, ampliando repertório e qualificando o debate educacional.
O Brasil urbano ainda conhece pouco o país que produz sua própria prosperidade. O ponto não é substituir uma narrativa por outra, mas aproximar escola e realidade produtiva. A agricultura contemporânea envolve biotecnologia, agricultura de precisão, pesquisa genética, manejo ambiental e cadeias logísticas sofisticadas, elementos raramente percebidos por quem vive em grandes centros.
A discussão, portanto, é educacional antes de ser ideológica. Nenhum país forma cidadãos preparados para o futuro ignorando seus próprios setores estratégicos. Conhecer o agronegócio não significa abandonar o pensamento crítico; significa permitir que ele se apoie em dados, ciência e experiência concreta.
Naturalmente, iniciativas dessa natureza também despertam controvérsias. Há quem veja nelas tentativa de influência sobre conteúdos escolares ou disputa narrativa dentro da educação. Esse debate é legítimo, e, em uma sociedade democrática, inevitável. O que não parece razoável é negar que a educação brasileira precise dialogar mais intensamente com a realidade econômica do país.
O verdadeiro desafio educacional do século XXI talvez seja justamente este: formar jovens capazes de compreender simultaneamente produção, sustentabilidade, inovação e desenvolvimento. Aproximar educação, ciência e capacidade produtiva nacional é passo essencial para transformar conhecimento em riqueza e desenvolvimento.
Compreender como o país produz riqueza não é apenas conhecimento econômico, é condição para formar cidadãos capazes de construir o futuro do Brasil.
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Guiomar Namo de Mello realizou estudos de pós-doutorado em Educação na Universidade de Londres. Foi Secretária de Educação do município de São Paulo, Deputada Estadual Constituinte e atuou como especialista em Educação no Banco Mundial e no Banco Interamericano em Washington.
Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro. Foi Secretário Estadual de Educação em São Paulo e professor no Colégio Bandeirantes e na Escola Politécnica da USP.
