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Artigo – O som da chuva e dos trens me faz recordar e dormir

By prof. Hubert
19 de setembro de 2026
26
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Por Reinaldo Polito.

Descubra como os sons da chuva e do trem trazem conforto e nostalgia para o sono, relembrando momentos da infância

Quase todo mundo gosta de dormir com um barulhinho de chuva batendo no telhado ou na vidraça. Eu me lembro de que, quando ainda era menino e morava em Araraquara, no interior de São Paulo, minha mãe costumava colocar latas onde caíam os pingos da chuva. Aquele som funcionava como um sonífero para todos nós.

Hoje, vivo em um apartamento e não tenho mais como repetir o velho hábito das latas debaixo da janela para ouvir a chuva caindo. Mas ainda posso contar com as janelas. O prazer é o mesmo. Se tiver uns trovões, então, a alegria é ainda maior. Levo poucos minutos para adormecer.

Os trens

Há um outro som que também me acompanha desde criança: o do trem. Eu costumava passar algumas das minhas férias na casa dos meus primos, em Bueno de Andrada, uma localidade que ficou famosa por suas coxinhas douradas. Quem passa por aquela região, se tiver a chance, vai até lá experimentar esse manjar dos deuses.

O meu tio era ferroviário e morava na casa fornecida pela companhia da estrada de ferro. Ficava à beira da linha do trem. Ali todo mundo dormia cedo. Eu já estava na cama quando o comboio passava pela curva a pouco mais de um quilômetro do vilarejo. O som das rodas rangendo nos trilhos aumentava à medida que ele se aproximava da casa.

Dormia logo

Muitas vezes, nem dava tempo de ouvir a locomotiva cortando a paisagem ao lado da janela. Quando o último vagão passava, eu já havia dormido. Era um dos grandes prazeres daqueles meus passeios a Bueno de Andrada. Os meus primos, acostumados a vida toda com esse som, diziam sentir a mesma satisfação.

E não era só naquela localidade. Na minha infância em Araraquara, não havia televisão, exceto em uma família ou outra mais abonada. No bairro em que eu morava, por exemplo, só em duas casas. Sem ter o que fazer, íamos cedo para a cama. A estrada de ferro estava localizada a menos de três quilômetros da minha casa.

Apitava com pontualidade

Logo depois que o trem saía da estação, passava por uma curva bem acentuada. Naquele local o maquinista tocava o apito. Era impressionante a pontualidade: 22h em ponto. Não adiantava, nem atrasava. Muitos acertavam o relógio pelo apito do trem. E o som dos vagões sobre os trilhos era ouvido com facilidade. O sono aparecia depressa.

Aqui em São Paulo, embora tenhamos trens, não dá para ouvi-los de onde eu moro. Mas encontrei um jeito para resolver essa falta. Na verdade, duas soluções. Uma delas é ligar a TV no YouTube e pesquisar por sons de chuvas e trens. Funciona como se eu estivesse ainda lá no interior.

Um aplicativo salvador

A outra saída foi um aplicativo excelente chamado “Atmosphere”. É gratuito. Possui uma infinidade de sons: avião, ônibus, caminhão, cachoeira, ondas do mar etc. E, como não poderia faltar, de chuva e trens. Há também de tempestades. É possível ouvir os sons isoladamente ou em conjunto, associando dois, três ou mais, e com a intensidade desejada. Problema resolvido.

Tive uma surpresa. Pensei que só eu possuía essa mania. Fiquei espantado, entretanto, ao descobrir que em alguns casos no YouTube há centenas de milhares de acessos, e que uma infinidade de pessoas recorre ao aplicativo. Ou seja, muita gente é embalada no mundo todo com esses sons.

O velho carrilhão

E não são apenas esses sons que me acompanham na vida. Tínhamos em casa um relógio carrilhão da marca Junghans do início dos anos 1900, que tocava a melodia Westminster, semelhante ao do Big Ben instalado na sede do Parlamento Britânico, em Londres. Esse relógio está com a nossa família até hoje, funcionando com a mesma perfeição.

Às vezes, quando ouço as batidas de quinze em quinze minutos, e percebo que o tempo voa sem que eu me dê conta, me divirto sozinho. Embora tenha sido um bom aluno, em certas ocasiões deixava para estudar na véspera da prova. Dava a impressão de que o relógio disparava. Nem tinha lido a primeira página do livro e lá vinham as batidas apressadas. Quanto desespero!

Escrevendo de madrugada

Hoje, não é muito diferente. Costumo escrever meus textos à noite. Quase um por dia. Com os afazeres profissionais, nem sempre dá tempo de fazer com antecedência, e fica tudo para a madrugada. Jamais deixei de entregar um texto no dia combinado. Cheguei a passar noites inteiras em claro para cumprir o compromisso. E nessas madrugadas, como no tempo de garoto, ouço as batidas do velho carrilhão avisando que o tempo está voando.

E você, tem algum som que o faz lembrar com alegria e saudade dos tempos da infância ou da juventude? Conseguiu encontrar um meio de compensar essa ausência que quase sempre não há como recuperar? Esse aplicativo que comentei pode resolver muito bem essa questão. Depois, envie um direct me contando.

___________________________________

Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 34 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br

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