Qualidade da educação: o papel decisivo do professor
Relatório da OCDE reafirma que a aprendizagem dos estudantes depende menos de métodos ou tecnologias e mais da qualidade da prática docente em sala de aula.
Por Hubert Alqueres e Rose Neubauer

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou recentemente o estudo Unlocking High-Quality Teaching, uma síntese internacional das práticas pedagógicas que apresentam maior impacto comprovado sobre a aprendizagem dos estudantes. Não se trata de mais um relatório normativo ou prescritivo. O mérito do documento está justamente em reunir evidências acumuladas ao longo de décadas para responder a uma pergunta simples: o que caracteriza, de fato, um ensino de alta qualidade?
A principal conclusão é ao mesmo tempo técnica e incômoda para debates educacionais frequentemente polarizados: não existe método milagroso nem solução única. O fator determinante continua sendo a qualidade da prática docente em sala de aula.
O estudo identifica elementos recorrentes nos sistemas educacionais que conseguem melhores resultados. O primeiro deles é o envolvimento cognitivo do estudante. Aprender não decorre da simples exposição ao conteúdo, mas da participação ativa do aluno, quando ele argumenta, formula hipóteses, estabelece relações e mobiliza conhecimentos anteriores. A aprendizagem exige empenho intelectual orientado.
Outro ponto é a organização clara do conhecimento. Professores eficazes estruturam conteúdos de forma progressiva e coerente, tornando explícitas as ideias fundamentais de cada componente. A clareza conceitual aparece como condição básica para reduzir desigualdades de aprendizagem, especialmente entre estudantes com menor capital cultural.
O relatório também destaca algo muitas vezes subestimado: o clima pedagógico. Ambientes respeitosos, com expectativas acadêmicas elevadas e apoio constante ao estudante, ampliam a persistência e a confiança para aprender. Não se trata de substituir exigência por acolhimento, mas de combinar ambos.
A qualidade das interações em sala de aula surge como outro fator decisivo. Perguntas bem formuladas, tempo para reflexão, debate entre pares e devolutivas contínuas demonstram impacto consistente nos resultados educacionais. Avaliar, nesse contexto, deixa de ser apenas medir desempenho e torna-se um instrumento poderoso para orientar o processo de aprendizagem.
Ao observar essas conclusões, é inevitável estabelecer paralelos com o debate educacional brasileiro. Nos últimos anos, o país avançou na construção de referências curriculares nacionais, no fortalecimento de avaliações em larga escala e na ampliação do uso de dados educacionais. A Base Nacional Comum Curricular, por exemplo, ao enfatizar competências cognitivas e socioemocionais, dialoga diretamente com as dimensões apontadas pela OCDE.
Estados brasileiros também vêm desenvolvendo políticas educionais alinhadas a essas evidências. Programas de recomposição das aprendizagens, acompanhamento sistemático por indicadores, formação continuada de professores baseada em práticas pedagógicas e uso mais estruturado de avaliações diagnósticas apontam para uma mudança gradual de foco: menos debate abstrato sobre modelos e maior atenção ao que ocorre efetivamente dentro da sala de aula.
Ainda assim, o desafio brasileiro permanece significativo. O estudo reforça que sistemas educacionais bem-sucedidos investem de forma consistente na formação docente, na observação de práticas pedagógicas e na construção de culturas profissionais colaborativas. No Brasil, a fragmentação e a descontinuidade administrativa das políticas educacionais dificultam ainda mais a consolidação desses processos.
O relatório também chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a qualidade da formação inicial docente. Sistemas educacionais de alto desempenho não apenas oferecem formação continuada consistente, mas estruturam com rigor o ingresso na carreira, articulando universidades, prática supervisionada e padrões profissionais claros desde o início da trajetória do professor.
Em termos práticos, a evidência internacional converge para uma conclusão direta: políticas educacionais eficazes são, essencialmente, políticas de desenvolvimento profissional docente sustentadas ao longo do tempo.
Talvez a contribuição mais relevante do relatório seja recolocar o professor no centro da política educacional, não como discurso, mas como estratégia que se baseia em dados concretos. Reformas estruturais são importantes, mas seus efeitos dependem da capacidade de transformar o cotidiano do ensino.
Em um momento em que tecnologias digitais e inteligência artificial passam a ocupar espaço crescente no debate educacional, o estudo da OCDE lembra uma verdade essencial: inovação educacional não substitui o ensino de qualidade. Ela o potencializa quando há clareza pedagógica, intencionalidade didática e domínio profissional.
O avanço da educação brasileira dependerá menos da busca por soluções disruptivas e mais da consolidação paciente daquilo que a evidência internacional já demonstra com clareza: bons sistemas educacionais são construídos por bons professores, apoiados por políticas consistentes e por uma cultura institucional orientada à aprendizagem real dos estudantes. Trata-se de uma agenda menos visível que reformas estruturais grandiosas, mas decisiva para que qualquer transformação educacional se sustente no longo prazo.
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Rose Neubauer e Hubert Alquéres são membros da Academia Paulista de Educação e dirigiram a Secretaria do Estado de Educação de São Paulo.

